A geografia crítica no Brasil: uma interpretação depoente* I.- O advento Não se pode dissociar o advento da(s) geografia(s)
crítica(s) da reação ou do posicionamento crítico dos geógrafos frente
a dois processos ou marcos fundamentais para a história do pensamento
geográfico na segunda metade do século XX: os movimentos sociais
contestatórios dos anos 1960 e 1970 (contracultura, lutas civis,
reação à guerra do Vietnã, movimento feminista, maio de 1968...)
e a falácia da razão instrumental ou, mais especificamente (em nossa
disciplina), da geografia pragmática e voltada para o planejamento.
A geografia crítica, enfim, foi aquela – ou, mais propriamente, aquelas,
no plural – que não apenas procurou superar tanto a geografia tradicional
quanto a quantitativa, como principalmente procurou se envolver
com novos sujeitos, buscou se identificar com a sociedade civil,
tentou se dissociar do Estado (esse sujeito privilegiado naquelas
duas modalidades anteriores de geografia!) e se engajar enquanto
saber crítico – aquele que analisa, compreende, aponta as contradições
e os limites, busca contribuir na ação... – nas
reivindicações dos oprimidos, das
mulheres, dos indígenas, dos negros e de todas as demais etnias subjugadas,
dos excluídos, dos dominados, dos que ensejam criar algo novo, dos
cidadãos em geral na (re)invenção de novos direitos. A
geocrítica no Brasil, portanto, se iniciou como um esfôrço por
parte de alguns docentes de superar (o que não significa abandonar
totalmente) a sua tradição, a sua formação universitária, aquilo
que as universidades diziam que “deveria ser ensinado”. Esses professores
de geografia procuraram suscitar nos seus alunos a compreensão
do subdesenvolvimento (a importância, nos anos 1970, do livro “Geografia
do subdesenvolvimento”, de
Yves Lacoste, foi enorme, embora esse tema incorporasse também
outros autores e obras significativos da época: Paul Baran e Paul
Sweezy, Harry Magdoff, Teotônio dos Santos, Rui Mauro Marini, André Gunder
Frank, etc.), ligando esse tema com o sistema capitalista mundial
e as suas áreas
centrais e periféricas. Eles procuraram também enfatizar a questão
agrária do Brasil, a questão da distribuição social da renda (um
tema recorrente no nosso pensamento crítico desde os anos 1970!),
a questão da pobreza e da violência policial . Eles – esse pequeno
grupo de professores do ensino médio, principalmente, os verdadeiros
introdutores da geocrítica no Brasil – estavam fazendo tudo isso enquando os “setores
avançados” da universidade – é evidente que estamos nos referindo à geografia – enfatizavam
obras/temas como “A organização do espaço”, de Jean Labasse, os “Pólos
de desenvolvimento” ou, no máximo, o livro “Geografia ativa”, de
Pierre George e outros (propostas distantes de qualquer saber crítico
e claramente comprometidas com o planejamento estatal). Em grande parte, podemos afirmar que a introdução da geocrítica a nível acadêmico deveu-se ao “encontro” ou diálogo desses professores de nível médio mais engajados e críticos com alguns raros docentes universitários que também estavam descontentes com toda aquela situação de controle, repressão e censura que existia na segunda metade dos anos 1960 e nos anos 70 no Brasil. Só para mencionar um exemplo significativo, podemos lembrar que nesse período sequer se podia falar em Geografia política e muito menos em “Geografia do subdesenvolvimento” nas universidades. Na própria USP, no Depto. de Geografia (considerado, com razão, como o “mais avançado” do país nessa época, o único que não foi subjugado nem pelos cursos de curta duração – Estudos Sociais – e muito menos pelo pragmatismo de inspiração norte-americana que rebaixava, ou melhor, travestia, a nossa disciplina de uma ciência humana e social para uma “geociência”), havia um curso de “Geografia do mundo tropical”, que ocupava o lugar daquela última e procurava “analisar” a realidade da América Latina, da África e de grande parte da Ásia sob esse parâmetro alicerçado na “Terra”!. Alguns
poucos docentes universitários “abriram as portas” da academia
para esses professores críticos e com uma boa dose de coragem aceitaram
orientar (ou melhor, conceder a sua assinatura ou aval, ou aprender
juntos, pois em geral eles dominavam esses novos temas menos que
certos orientandos)
a
elaboração de dissertações de mestrado ou teses de doutorado sobre
assuntos/objetos que até então eram interditados ao saber geográfico
universitário: a autoajuda dos moradores de bairros populares,
os problemas do desenvolvimento capitalista no campo, análises
críticas
da geopolítica brasileira e de seus projetos, a escola e o ensino
da geografia como aparatos ideológicos, a industrialização e a produção
do espaço em alguma região específica, o espaço geográfico
como locus (e
instrumento) de lutas sociais, as desigualdades (e a natureza classista)
das formas de apropriação social do espaço, etc. Foi a partir desta
confluência – entre uma meia dúzia de docentes universitários com
doutorado e um punhado de (ex-) professores do ensino médio que
já estavam
revolucionando há anos esse saber nas salas de aula – que surgiu
oficialmente, enquanto legitimação pela academia, a(s) geografia(s)
crítica(s) no Brasil. II.- A geografia acadêmica e a AGBEssa
foi a primeira geração dos geógrafos
críticos no Brasil(2).
Foi a geração que produziu trabalhos pioneiros de pesquisas e/ou
reflexões críticas acadêmicas nos anos 1970 (principalmente no
final dessa década) e nos anos 1980. Depois dela veio a segunda
geração,
aquela dos anos 1990 e desta primeira década do século XXI, que
em grande parte é constituída por (ex-)alunos ou orientandos dessa
primeira geração (com a qual convive). Talvez a principal diferença
entre elas seja que a primeira
geração era, pelo menos até o final dos anos 80, essencialmente
gramsciana no sentido de acreditar que estava promovendo uma revolução
(anti-capitalista e igualitária) na geografia e na universidade.
A segunda geração,
por sua vez (é lógico que toda regra admite exceções e que existem
interpenetrações ou sobreposições), preocupa-se muito mais com
o método,
com novos enfoques para analisar o “espaço”,
com o prestígio científico ou social. Mas essas diferenças são
antes de mais nada relativas e desde o início já havia determinadas
ambiguidades ou aporias na(s) geografia(s) crítica(s) tanto no
Brasil como no exterior(3). Mas a partir dessa democratização da AGB-nacional (pois a AGB-SP, a seção São Paulo da associação, já havia sido democratizada dois anos antes, desde 1976, e inclusive foi dela que surgiu a “edição pirata” dessa obra de Lacoste) não se pode falar em “introdução da geografia crítica no Brasil”, pois isso seria fazer uma espécie de história institucional (algo que lembra muito os historiadores tradicionais, que denegam as lutas populares e só promovem as mudanças nas instituições oficiais) e desqualificar toda uma ação anterior de centenas de professores de geografia, alguns dos quais pagaram caro por essa ousadia de revolucionar o conteúdo geográfico (e a prática pedagógica) nas salas de aula. E, por outro lado, não podemos exagerar a importância, embora ela exista, ou a difusão da AGB. Provavelmente cerca de 80% do professorado de geografia do país, a imensa maioria dos geógrafos portanto, até hoje (imagine-se então em 1978, quando a AGB era bem mais elitizada) nunca sequer ouviu falar dessa associação(5). Apesar
de uma louvável democratização a partir
de 1976-78, a AGB ainda é um reduto de professores universitários,
principalmente dos mais jovens (doutores) e não mais apenas dos “figurões” (titulares)
como era anteriormente, e pouco tem a ver com a realidade da geografia
que predomina no Brasil e no mundo (e que contém o futuro desta
disciplina), que é a geografia escolar no ensino fundamental e
médio. Isso não é uma
crítica destrutiva e sim uma constatação, ou, se preferirem, uma
autocrítica (construtiva) no sentido de se identificar com essa
associação
e se preocupar com as suas insuficiências. E é lógico que existem
inúmeras razões que justificam (embora não legitimem) esse estágio
de coisas: a necessidade de apoio das universidades para que as
AGB’s
locais – que afinal são a base da nacional – possam existir (elas
em geral, inclusive a de São Paulo, na qual a nacional está ancorada,
mal conseguem pagar sozinhas a conta do telefone ou a do
provedor da internet, imagine-se então o aluguel de alguma sala;
e tanto os diretores quanto os funcionários são professores ou
estudantes que realizam voluntaria e gratuitamente essas tarefas),
os baixíssimos
salários percebidos pelos professores do ensino fundamental e médio
(que assim não têm tempo nem dinheiro para freqüentar assiduamente
as assembléias e os encontros da AGB) etc. Mas confundir a AGB com a geografia do Brasil,
como fazem aqueles que divulgam a idéia de que o Encontro de Fortaleza
teria sido o “deflagrador” da geocrítica no país, é não enxergar
a realidade, é confundir o todo com uma pequena parte. III.- A geografia educativa Por sinal isso incomodava alguns, que denunciaram o colégio como “subversivo”, e o antigo DOPS, a polícia política da época, dirigida aqui em SP pelo delegado-torturador Fleury, duas vezes invadiu o colégio e prendeu para interrogatório alguns professores (aqueles que por azar estavam lá naquele momento), além de ter roubado equipamentos da nossa gráfica (nossa aparelhagem para imprimir textos e apostilas, inclusive com cores). Por idéia minha reorganizamos o espaço das salas de aula: abolimos o quadro-negro, a mesa do professor e as carteiras individuais dos alunos e no seu lugar colocamos algumas mesas redondas, para os alunos ficarem permanentemente em grupos (um olhando para o outro ao invés de todos olhando para o professor ou para o quadro-negro) e com frequência abríamos uma imensa mesa-redonda na sala para realizar algum debate. Quanto ao sindicato, onde lecionei por quase 3 anos para alunos trabalhadores, também introduzimos textos críticos e novos temas (inclusive o direito de greve e a luta de classes), mas não mudamos a organização espacial da sala de aula e nem mesmo a relação professor/aluno, pois cada classe tinha centenas de estudantes e as aulas expositivas eram uma imposição. Além disso, não eram os professores quem avaliavam os alunos do curso supletivo naquela época. Eles deviam prestar um exame unificado, que ocorria duas vezes por ano, no qual somente existiam questões tradicionais de múltipla escolha. No entanto, fomos advertidos várias vezes pela direção do sindicato (na época pelega) que deveriamos "maneirar" nas aulas pois o pessoal do DOPS havia entrado em contado com eles dizendo que receberam algumas denúncias e poderiam até fechar o curso supletivo. Inclusive foi esse o motivo da nossa demissão (minha e do outro colega da área, o Pavanello, que há alguns anos morreu num acidente de carro) pela diretoria pelega do sindicato: que não ensinávamos "o que deveria" (isto é, nomes de rios ou de planaltos) e sim outros temas "sociais" que não eram geográficos! Vários dos sindicalistas que mudaram completamente esse sindicato a partir de 1978 estudaram durante algum tempo nesse curso supletivo, inclusive o Lula, embora este só eventualmente assistisse às aulas e nunca se interessou em prestar os exames supletivos. Por sinal, eu e o Pavanello fomos chamados de volta para coordenar e lecionar nesse curso supletivo, em 1978, mas não aceitamos porque estávamos trabalhando em outro lugar ganhando muito mais (no SESC) e, principalmente, porque não acreditamos de fato, talvez tendo cometido um equívoco, que essa nova diretoria sindical (alguns eram pelegos anteriormente) iria de fato alterar radicalmente o perfil dessa associação de classe. Enfim,
concluindo esta “digressão” de natureza pessoal,
gostaria de deixar claro que essas experiências – em especial
os textos que elaborei nesse período (coloco na primeira pessoa
do singular porque tanto o Gumercindo quanto o Pavanello, dois
importantes
companheiros
nessas jornadas, não gostavam de redigir textos e sim de lecionar;
os textos, principalmente aqueles com os novos temas, eram de
minha exclusiva responsabilidade) – foram a base para a edição
posterior dos meus primeiros livros didáticos, “Sociedade e espaço” (1982)
e “Brasil, sociedade e espaço” (1984), que não por acaso são
direcionados para o ensino médio. Quanto
aos compêndios escolares, reitero o que já afirmei: que eles não
têm tanto importância assim (inclusive é no seu uso pelos
professores na sala de aula que eles adquirem tal ou qual característica)
e que a incorporação por alguns deles, nos anos 1970, das idéias “georgeanas” (de
Pierre George e a sua “geografia
ativa”), não significou de maneira nenhuma uma reviravolta crítica.
Foi somente uma renovação dentro do tradicional, na qual houve
a abertura para alguns poucos novos temas – o planejamento, a conservação
dos recursos naturais e o subdesenvolvimento entendido enquanto
um rol de “características” – mas que eram assuntos e abordagens
ainda não radicais e comprometidos com o Estado enquanto sujeito,
com uma visão idílica de sociedade (sem contradições). Algo portanto
muito distante daquilo que desde o início foi essencial na geocrítica,
ou seja, a crítica do capitalismo e do socialismo real, a compreensão
do subdesenvolvimento como parte periférica do sistema capitalista
mundial, a incorporação crítica da geopolítica, a questão ambiental,
o distanciamento relativo frente ao Estado e principalmente uma
abertura para as contradições e para os sujeitos sociais (desde
o proletariado até as mulheres, passando pelos moradores, consumidores,
etnias subjugadas etc.) e as suas lutas. IV.- As publicações e a difusão na mídiaNo caso das obras didáticas, ocorreu a partir do final dos anos 1980 uma progressiva mudança, com praticamente todos os autores tradicionais passando a incorporar – muitas vezes de forma indevida e tão somente mecânica ou imitativa – parte dos conteúdos críticos, mas a vendagem dessas obras no conjunto vem diminuindo bastante com o decorrer dos anos por dois motivos principais. Por um lado, aquele das escolas públicas, ocorreu uma perda de poder aquisitivo das famílias de baixas rendas, o que implicou num sacrifício do compêndio escolar (de todas as disciplinas e em particular das estereotipadas como “menos importantes”). Pelo outro lado, o das escolas particulares, tornou-se cada vez mais freqüênte o uso de apostilas padronizadas elaboradas por grandes redes que vendem as suas franquias: Objetivo, Positivo, Anglo etc. Em todo o caso, talvez pela primeira vez, pelo menos no Brasil, livros geográficos não didáticos passaram a ser lidos e até citados por profissionais de áreas diversas: urbanistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos, economistas... Para mais uma vez mencionar um exemplo pessoal (afinal esta é uma escrita de natureza depoente), o meu livro “A capital da geopolítica”, de 1987 (mas baseado na minha tese de doutoramento, de 1985), teve já cinco edições e foi lido não apenas por geógrafos mas também – ou talvez até principalmente – por urbanistas, cientistas políticos e historiadores (sei disso por informações de livreiros e também pelos inúmeros convites para falar sobre o assunto oriundos de departamentos de história ou de ciências sociais, de seções do IAB, de associações de moradores etc). Mas sem dúvida que o trabalho pioneiro nesse sentido foi aquele mencionado livro-manifesto de Yves Lacoste, de 1976, que foi lido e citado por centenas de profissionais de outras áreas e também por jornalistas (lembro-me de uma resenha dessa época, assinada por Giles Lapouge, no sisudo jornal O Estado de S.Paulo, que ocupou duas páginas inteiras num domingo!). Por sinal, esse livrete de Lacoste, que nem de longe é a sua principal obra, foi provavelmente o trabalho geográfico (deixando-se de lado publicações não acadêmicas tais como a National Geographic e outras) mais divulgado em todo o mundo desde pelo menos os anos 1960, tendo sido traduzido e reeditado em dezenas de idiomas: do inglês ao árabe, do japonês ao alemão, do sueco ao italiano, etc. Depois dele só o livro “A condição pós-moderna”, de David Harvey (de 1989), alcançou tamanha difusão internacional. Também
a geografia brasileira passou a publicar muito mais que anteriormente,
com o revigoramento de alguns periódicos já existentes (como
o Boletim
Paulista de Geografia) e o surgimento de novos outros
(como a revista Terra
Livre e inúmeras outras de seções locais da AGB e/ou de departamentos
de geografia das universidades). Autores que escreveram sucintos
livros de divulgação da geocrítica, como principalmente Rui
Moreira (O que é geografia, de 1980) e Antonio Carlos
Robert de Moraes (Geografia: pequena história crítica, de 1981),
alcançaram
enormes vendagens e sucessivas reedições. Também os livros
dogmáticos Introdução à geografia – geografia
e ideologia, de Nelson Werneck Sodré (de 1976), e Marxismo
e geografia de
Massimo Quaini, traduzido para o português em 1979, tiveram
uma grande importância na propagação da(s) geografia(s) crítica(s)
para o grande público brasileiro e para os estudantes universitários,
pelo menos durante uma fase inicial que ocorreu de meados dos
anos 70 até o
final dos anos 80. Para os professores de geografia em geral,
que afinal são – pelo menos em tese – os grandes consumidores
dessas obras na medida em que o grande mercado de trabalho
no Brasil para
os geógrafos sempre foi o ensino, duas coletâneas de textos
sobre a geografia escolar, de autores variados (brasileiros
e franceses),
tiveram e ainda têm uma grande importância: Para onde vai
o ensino da geografia? (editora Contexto, 1989, organização
de Ariovaldo U. de Oliveira) e Geografia e ensino: textos
críticos (editora
Papirus, 1989, organização de J.W.Vesentini). São obras que
passaram a ser recomendadas em quase todos os concursos para
professores,
que conheceram várias reedições e que incorporam pontos de
vista diferenciados (e às vezes até alternativos) e refletem
bem a natureza pluralista da geocrítica no que se refere ao
entendimento do ensino da disciplina. Por isso, autores como Foucault (nas relações entre espaço e poder e no entendimento deste como rede, como algo mais amplo que o Estado) e Lefebvre (no entendimento do espaço produzido pelo capitalismo e pelas lutas sociais), principalmente, além de outros (Lipietz e Francisco de Oliveira, na questão regional; José de Souza Martins, na análise dos sujeitos do meio rural brasileiro; Claude Raffestin, na redefinição de conceitos como território/territorialidade, espaço/espacialidade etc.), foram e são muito mais importantes nos trabalhos acadêmicos da geocrítica brasileira – em especial nas geografias política, social, regional, demográfica, urbana e agrária – do que a espaciologia de Milton Santos. Este, no final das contas, só acabou produzindo uma meia dúzia de discípulos bem comportados e pouco criativos, que recolhem informações ou dados estatísticos sobre temas “novos” (telecomunicações, aeroportos, hotéis, sistema bancário etc.) e tão somente os reproduzem acompanhados de frases estereotipadas extraídas do mestre (tais como “este espaço manda e aquele obedece”, “isto é um fixo e aquilo é um fluxo” ou “o território é desigualmente apropriado”), sendo incapazes de engendrar qualquer tese de fato ou mesmo qualquer idéia nova a respeito do assunto abordado. O último
livro de Santos, O Brasil, território
e sociedade no início do século XXI (editado em 2000 em co-autoria com Maria Laura
Silveira, além da ajuda de inúmeros estagiários, que receberam
bolsas de iniciação
científica durante anos e fizeram levantamentos bibliográfico
e de dados e resenhas de livros e teses), justamente o
mais ambicioso de todos – os autores afirmaram que ele já nasceu
como um “clássico” comparável às obras de Caio Prado Júnior,
Celso Furtado e Florestan Fernandes (sic!) – é bastante
representativo dessa incapacidade da espaciologia em produzir
qualquer trabalho
importante ou mesmo criativo. Existe nas 473 páginas dessa obra
um amontoado de dados estatísticos, mapas e informações descritivas,
que podem ser facilmente obtidos por qualquer pessoa em almanaques
ou anuários especializados – sobre a rede bancária no Brasil,
os aeroportos, as redes de transportes, as refinarias de petróleo
e os dutos, os shopping centers etc. – e nenhuma tese ou idéia
nova a respeito do significado disso tudo, apenas a constante
repetição,
em cada capítulo, de que “alguns espaços mandam” (o Sudeste,
especialmente São Paulo) e outros “obedecem”. Não existe nenhuma
análise dos
sujeitos, das classes ou grupos sociais, e nem mesmo qualquer
referência às
lutas e conflitos ou aos projetos que (re)constroem o espaço
ou o território. É uma obra que lembra muito aqueles longos artigos
tradicionais do IBGE dos anos 1950, 60 e parte dos 70, sobre
a atividade indústrial,
as cidades grandes e médias, os estabelecimentos agropecuários,
etc., nos quais nunca havia uma explicação geográfico-científica
e sim um acúmulo de informações e dados estatísticos, sempre
acompanhados de cartogramas que mostravam a distribuição do objeto
estudado no território nacional. A única diferença é que este
livro procurou “sintetizar”,
ou melhor abordar na mesma obra todos aqueles temas que as publicações
do IBGE enfocavam separadamente (mas eles não estão integrados
no livro e sim divididos em capítulos distintos) e em cada um
deles é repetida à exaustão
a retórica pseudo-crítica de que o “território é apropriado desigualmente” e
que existem “áreas que mandam” (ou exploram) e outras que são “subordinadas”(6). Entretanto, é inegável a importância que Milton Santos teve na difusão, através da mídia, da geocrítica brasileira. Ele foi o único geógrafo a sair nas páginas amarelas da revista Veja, a ser longamente entrevistado em praticamente todos os programas importantes da televisão e também em todos os principais jornais e revistas do país, a escrever periodicamente colunas na página 3 do jornal Folha de S.Paulo etc. Ao seu redor criou-se um grupo com ramificações em todo o território nacional (e até no exterior – por exemplo, na Argentina) que constantemente o promovia. Realizaram-se na primeira metade dos anos 1990 vários encontros ou seminários internacionais sobre a nova ordem mundial ou sobre o novo mapa-mundi, com subsídios oriundos do CNPq e de outros órgãos públicos de financiamento (nos quais Santos e o seu grupo sempre tiveram grande poder), sendo convidados vários importantes geógrafos franceses e norte-americanos e, indefectivelmente, ele era designado para ser o conferencista da abertura. Essa entourage conseguiu até – e essa foi a verdadeira “pedra de toque” de toda a estratégia de promoção da sua figura e, por tabela, de todo o grupo – forjar uma imagem sua como “refugiado esquerdista” da ditadura militar(7) e, principalmente, convencer a mídia brasileira que o (então) recém-criado e desconhecido prêmio Vautrin Lud, que Santos ganhou em 1993, era uma espécie de “prêmio Nobel da geografia”. Enfim, a partir dos anos 1990 pouco a pouco a figura de Santos e a geocrítica brasileira passaram a se confundir a nível da mídia. Isso nunca ocorreu no plano da realidade – das pesquisas, das teses e das obras publicadas – e muito menos na consciência da maior parte dos geógrafos, em especial do professorado. Mas sem dúvida que ocorreu na mídia e, consequentemente, na compreensão de boa parte do público e até dos profissionais de outras áreas. Eu mesmo há uns dois ou três anos ouvi uma pergunta-afirmação, feita por um jornalista que fazia doutorado na USP e lecionava no departamento de jornalismo de uma universidade federal (num estado sulino), se foi depois e devido ao Milton Santos que a geografia deixou de ser uma disciplina descritiva e voltada para a memorização de nomes de capitais ou de rios... E mais recentemente, há poucas semanas, um professor universitário de geografia de um país latino-americano me enviou um e-mail solicitando ajuda no levantamento das obras de Santos (e apenas dele) para que ele pudesse escrever um artigo sobre a “história da geografia crítica no Brasil”. Resta apenas avaliar
se esse identificação da geocrítica brasileira com a figura do Milton
Santos, operada pela mídia, foi positiva ou negativa. Talvez tenha
sido positiva na medida em que contribuiu para ampliar o espaço da
geografia nos meios de comunicação de massas. Mas talvez tenha sido
negativa na medida em que obliterou outras falas, outros caminhos
e alternativas diferenciadas, sugerindo uma homogeneidade onde sempre
houve pluralidade e uma rica complexidade. Em todo o caso deve-se
lamentar a sua morte prematura em junho deste ano, num momento em
que ele estava numa grande efervescência intelectual. Pois bem ou
mal ele sempre buscou incorporar novos temas ao discurso geográfico
e, indiscutivelmente, teve o mérito de acompanhar as mudanças que
ocorreram nos últimos anos e décadas no espaço mundial e no território
brasileiro. Que ele descanse em paz e que, mesmo sem a sua importante
contribuição, a(s) geografia(s) crítica(s) do/no Brasil prossiga(m)
nesse seu itinerário de revolucionar o ensino da disciplina, de abordar/incorporar
novos temas e de realizar outros e mais criativos (e comprometidos
socialmente) estudos e pesquisas. --------------------------------------------------- NOTAS: * Texto inédito, escrito em outubro de 2001 apenas como hipertexto deste site. ** Professor
e pesquisador do Departamento de Geografia da FFLCH da Universidade
de São
Paulo. 1. Ver o texto desse autor – O ensino da geografia –,
disponível neste site in: http://www.geocritica.com.br/texto03-5.htm 4. A primeira edição dessa obra,
em francês, deu-se em 1976 (e logo surgiu uma tradução portuguesa,
que foi xerocada em São Paulo e originou uma “edição pirata” brasileira,
com milhares de exemplares que em grande parte foram vendidos em
Fortaleza durante o Encontro de 1978). Uma edição mais recente,
traduzida de uma nova versão ampliada escrita pelo autor, foi publicada
em 1988 pela editora Papirus, de Campinas. Nesta, existe uma introdução
de nossa autoria que realiza uma espécie de “balanço” a respeito
do significado dessa obra na geografia brasileira. 5. Utilizo esse número (e esse raciocínio) com base em pesquisas feitas em 1995-6 por alunos do meu curso “Geografia crítica e Ensino” nas antigas Delegacias Regionais de Ensino da Grande São Paulo, quando constatamos que 54% dos professores de geografia na rede pública (de 5a á 8a séries e no ensino médio) não são formados nesta disciplina, sendo estudantes (principalmente de história, ciências sociais ou geografia) ou engenheiros, advogados, teólogos ou seminaristas, historiadores ou sociólogos etc. A única referência que grande parte desse pessoal possui, sobre as mudanças na geografia, é a que está contida nos (poucos) bons livros didáticos, que algumas vezes eles usam para preparar suas aulas (mas não como livro-texto dos alunos, que no máximo possuem um caderno). Se essa é a realidade da Grande São Paulo, o centro dinâmico da economia nacional, imagine-se então a situação mediana no restante do país! 7. A rigor, essa imagem é maquiada, pois até o golpe
militar de 1964 Santos foi muito ligado a José Aparecido, uma das
figuras-chave do governo populista e direitista de Jânio Quadros.
Ele se auto-exilou na França por conveniência e não devido a qualquer
perseguição por parte dos órgãos de repressão. Ademais, só podemos
lamentar esta nossa cultura subdesenvolvida que transforma em “heróis” aqueles
que no pós-64 saíram do país e viveram durante algum tempo no Chile,
em Cuba ou na França, pois os que contribuiram de fato na luta
contra a ditadura militar foram os que aqui permaneceram e continuaram
atuando apesar de todos os riscos.
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