O QUE É GEOGRAFIA CRÍTICA? 2. A fase atual Nos dias atuais existem geografias críticas, ou radicais, no plural. Afinal, toda oposição é mais ou menos unida no início, no processo de luta contra o status quo. É uma frente, que quanto começa a se tornar hegemônica manifesta todas as suas contradições, que inclusive são positivas na medida em que o pensamento único ou unívoco é autoritário e empobrecedor. E como o(s) adversário(s) já não existe mais, ou pelo menos não tem mais a presença marcante que tinha no passado -- a geografia quantitativa praticamente sumiu do mapa, embora a matemática, a estatística, a lógica formal e os computadores continem a ser bastante utilizados, muitas vezes até mais que nos anos 60 ou 70, só que sob outros prismas diferentes daquele intrumental-pragmático; e a geografia tradicional já não tem a menor condição de cercear o pensamento crítico e nem mesmo de emular com ele --, a questão agora é a busca de caminhos próprios ou, infelizmente, para alguns, a acirrada disputa por poder, por lugares na mídia, nas publicações, nos departamentos, nas universidades, em cargos governamentais, etc. Desde o início havia uma clivagem latente entre os radicais anglo-saxônicos -- que em grande parte foram oriundos da geografia quantitativa, que se esgotou nos anos 70, e procuraram construir uma teoria geográfica formal e esquemática, com freqüência inspirada numa leitura positivista do marxismo (a influência do althusserianismo aí foi enorme, paradoxalmente muito maior que na geografia francesa) -- e os críticos latinos, que tiveram uma maior abertura à pluralidade teórico-metodológica e um produtivo diálogo com Foucault. Mas essa clivagem subdividiu-se, tornou-se cada vez mais complexa, não sendo mais suficiente para dar conta da situação hodierna. Sempre houve também, desde os anos 70, uma enorme dificuldade em encaixar a geografia física nesse movimento de renovação. Afinal, praticamente todos -- ou pelo menos a imensa maioria -- os pioneiros da geografia crítica ou radical eram identificados com a geografia humana, em especial com a geografia política/geopolítica, com a geografia urbana e com a geografia econômica. Foi no estudo do subdesenvolvimento, da justiça social, da pobreza e da marginalidade, das relações de poder no espaço, da construção social do espaço enfim, que a(s) geografia crítica ou radical se afirmou. A geografia radical anglo-saxônica, a bem da verdade, sequer tentou incorporar seriamente o estudo geográfico da natureza. Quando se consulta a revista Antipode na sua fase áurea, de 1969 até por volta de 1980, nem mesmo com o uso de uma lupa iremos encontrar algum artigo de geografia física. Talvez isso se deva, pelo menos em parte, à tradição acadêmica norte-americana de situar a geomorfologia como um ramo da geologia e a climatologia como um subproduto da física. Mas é inegável que quando se procura esmiuçar o que significa espaço na obra de algum geógrafo anglo-saxônico radical -- seja em David Harvey, R. Peet, N. Smith, J.R. Short, P. Taylor, D. Slater, G. Parker ou qualquer outro do mesmo calibre --, dificilmente iremos nos deparar com alguma referência aos processos naturais em si. Em contrapartida, na geografia crítica houve desde o início uma tentativa de levar em conta não apenas a questão ambiental mas também a natureza em si. Podemos encontrar inúmeros artigos de Jean Tricard, de G. Bertrand e outros geógrafos físicos na revista Hérodote em sua fase áurea, de 1976 até meados dos anos 80. Inclusive existem nela números especiais dedicados ao estudo geográfico da natureza e às relações entre geografia e ecologia. Todavia, foram afinal movimentos basicamente exógenos à geografia, mesmo que eventualmente tenham contado com a contribuição de um ou outro geógrafo -- isto é, a crise ambiental planetária, a eclosão do ecologismo e o advento de um novo pensamento holístico --, que ofereceram a esta a possibilidade de uma incorporação mais efetiva do estudo da natureza no bojo do processo de renovação crítica ou radical. As idéias de "a Terra, planeta vivo" (tão cara a Tricard, embora de inspiração em Lovelock), de uma abordagem holística do real (que não se confunde com a totalidade marxista, que possui um viés economicista e encara a natureza tão somente como recurso) e a expansão dos estudos de impactos ambientais (algo decorrente da necessidade social de preservar/conservar o meio ambiente), acabaram oferecendo uma nova luz no antigo dilema geográfico de integrar os estudos da sociedade e da natureza. Simplificando bastante, podemos concluir que existem inúmeras geografias críticas, que dependem fundamentalmente dos problemas estudados e da opção teórico-metodológica do estudioso. Sujeito e objeto se entrelaçam, pois como afirmou o filósofo Merleau-Pointy: "Não há uma pergunta que resida em nós e uma resposta que esteja nas coisas, um ser exterior a descobrir e uma consciência observadora. A solução está também em nós, e o próprio ser é problemático. Há algo da natureza da interrogação que se transfere para a resposta".
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