Determinismo geográfico revivido? Reflexões a partir
da resenha crítica do livro Geografia é
destino?Lições da América Latina, de John Luke GALLUP, Alejandro GAVIRIA e
Eduardo LORA (editora Unesp, 2007, tradução de Fernando
Santos).
José
William Vesentini (*)
Publicado originalmente em 2003, em inglês, pelo BID
– Banco Interamericano de Desenvolvimento –, este livro faz parte de uma série
de trabalhos encomendados pelas organizações internacionais a partir dos anos
1990 que procuram explicar quais são os entraves para o desenvolvimento nas
regiões pobres do globo. Neste caso, a América Latina é objeto de um estudo que
procura investigar qual seria o papel da geografia no subdesenvolvimento desta
parte do continente.
Para entendermos melhor o porquê deste trabalho, que
na verdade foi realizado a pedido e com financiamento dessa organização
internacional sediada em Washington, temos que recordar que a partir das últimas
décadas do século XX inúmeras pesquisas demostraram que o desenvolvimento
econômico e social, principalmente o sustentável – pensando-se, evidentemente,
não apenas em sustentabilidade ambiental, mas também cultural, social, econômica e por aí afora – não se explica tão
somente por fatores históricos e principalmente econômicos, os únicos mencionados
nas teorias tradicionais fossem elas liberais, neoliberais, marxistas,
estruturalistas ou keysenianas. Os fatores ou processos culturais passaram a
ser revalorizados, tendo ocorrido uma retomada – embora de forma ampliada e
adaptada às novas condições – do insight weberiano
sobre as relações entre a ética calvinista e o espírito do capitalismo. Também determinados
traços políticos (estabilidade, boa governança, baixo grau de corrupção, transparência,
democracia enfim) e institucionais (bom sistema judiciário, com estabilidade
institucional que garanta os contratos; sistema escolar eficiente, que forme
uma força de trabalho qualificada e seja uma alavanca para a pesquisa
científica e tecnológica; legislação que favoreça a inovação tecnológica e o
empreendedorismo; etc.) foram estudados como causas do maior ou menor
desenvolvimento deste ou daquele Estado nacional. E a geografia – ou melhor, as
chamadas “condições geográficas” (localização absoluta e principalmente
relativa, clima, solos, geodemografia, grau de urbanização, disponibilidade de
recursos naturais, etc.) –, antes tão negligenciada, também passou
novamente a ser considerada como um dos elementos que favorecem ou dificultam o
desenvolvimento de uma região ou de um país. Nesse sentido, este trabalho
procurou perscrutar o peso das condições geográficas no escasso desenvolvimento
latino-americano (em comparação com a América Anglo-saxônica) e também nas
desigualdades regionais dentro da América Latina ou até mesmo no interior de
determinados países como o Brasil, o México, a Bolívia, a Colômbia e o Peru,
que foram objetos de análises nesta obra.
Em primeiro lugar, devemos tecer elogios a este
resgate da geografia pelos economistas, com uma revalorização (depois de
inúmeras décadas de ostracismo!) das condições geográficas como um dos fatores
determinantes do desempenho histórico-econômico de uma sociedade. Um resgate
que vem se expandindo desde o final dos anos 1980 – os economistas estão descobrindo
a natureza e redescobrindo/revalorizando a economia espacial e em particular a
geografia econômica – e conta com nomes de peso tais como o prêmio Nobel Paul
Krugman, o antigo expoente da “escola de Chicago” (e idealizador do “modelo
chileno” de desenvolvimento, além de eterno candidato àquele referido prêmio)
Jeffrey Sachs e inúmeros outros (1).
Os autores deste livro estranhamente deixaram de lado as obras de Krugman (com
exceção de um trabalho em coautoria com Fujita e Venables,
mencionado na nota 1, mas que não é a sua mais
importante contribuição para este tema) e utilizaram bastante as de Sachs (na
verdade o grande inspirador deste estudo) e também o volumoso livro de Landes (2), um especialista em
história e economia política da Universidade de Harvard, que, apesar de sua
ênfase na cultura sob a inspiração das ideias de Weber, procurou levar em
consideração as condições geográficas para explicar o atraso de algumas nações
em comparação com os atuais países desenvolvidos.
Entretanto, malgrado as boas intenções este estudo
ficou muito limitado pela quase total ausência de uma bibliografia geográfica,
de pesquisas de fato geográficas e atuais, para alicerçar as diferenças
espaciais entre países e entre regiões dentro de um mesmo território nacional. Os
autores são três economistas que praticamente nada entendem de geografia e que,
embora imbuídos de grande dose de boa vontade, utilizaram um material em geral ultrapassado,
salvo raras exceções: noções sobre clima dos anos 1950, uma visão extremamente
pobre e compartimentada das “condições geográficas”, na verdade de apenas algumas
delas, com cada elemento (localização, clima, solos, disponibilidade de água e
de outros recursos naturais, incidência doenças tropicais, condições
demográficas, grau de urbanização) visto e ponderado de forma totalmente isolada
como se eles não interagissem, não formassem conjuntos ou sistemas tal como
aparece nos trabalhos dos geógrafos. O único geógrafo importante mencionado foi
Jared Diamond com o seu livro Armas, germes e aço, mas o problema é que ele é totalmente
inadequado para este tipo de inquérito na medida em que trabalha com uma
duração temporal extremamente longa, de milhares de anos, analisando o declínio
ou a permanência de civilizações milenares (sempre em função de suas relações
com o meio ambiente) e nunca diferenças regionais do nosso presente. Ademais,
esse biogeógrafo norte-americano realizou pesquisas que, conquanto tenham um enorme
valor, enfocaram sociedades tradicionais, pré-industriais e com tecnologia em
geral rudimentar, algo bem diferente do Brasil ou do México dos nossos dias.
A metodologia deste estudo é comparativa e no fundo simples:
cada fator é isolado em sua forma numérica (com tabelas), gráfica ou
cartográfica e visto em comparação com alguns índices de desenvolvimento
econômico ou de bem estar. Por exemplo, usa-se um mapa da América Latina dividida
em ecozonas (com base em Köppen
e Geiger: trópicos úmicos, trópicos de monção,
temperado úmido, estepe, deserto, altitudes elevadas, etc.) e se sobrepõe a
mapas ou gráficos desta mesma região (ou partes dela) de renda per capita, de PIB per capita, de densidade demográfica, de produção agrícola por
trabalhador, de incidência de malária e de alguns outros indicadores. Ou então
se analisa a correlação entre renda per
capita e maior ou menor incidência de malária ou de outras doenças
tropicais, entre altitude e PIB per
capita e assim sucessivamente. Tudo bem que esse método leve a determinadas
conclusões relativamente interessantes, tais como que em geral (existem
exceções) as áreas temperadas da América Latina são mais desenvolvidas (isto é,
possuem índices de renda per capita ou
de IDH superiores à média da região) que as tropicais e principalmente que as
equatoriais, ou que os países e regiões mais urbanizados têm índices de
desenvolvimento econômico superiores aos menos urbanizados. O problema é que tudo
isso é algo banal e já conhecido muito antes deste trabalho. Além disso, são
constatações que não explicam nada, apenas descrevem correlações simples sem
perceber que elas podem ter sido ocasionadas por determinados processos
históricos complexos (nos quais inúmeros fatores tiveram o seu peso relativo) e
não por qualquer tipo de imposição da natureza ou das “condições geográficas”.
Os avanços da medicina desde pelo menos o século XIX, por exemplo, foram feitos
basicamente nas áreas temperadas e deixaram meio de lado (na medida em que a
expectativa de lucros é bem inferior) as pesquisas sobre certas doenças
tropicais que tanta mortalidade (ou às vezes baixa produtividade do trabalho) ocasionam na África e em outras áreas tropicais e
principalmente equatoriais. E o maior desenvolvimento comparativo da Argentina,
do Uruguai e do Chile, ou dentro do México da porção de maior altitude (que os
autores incluem nos climas temperados) em comparação com as zonas de menor
altitude (e climas mais quentes), podem ser e já foram
explicados de forma mais apropriada pelas características da colonização: os
europeus que vieram para povoar (e não apenas explorar determinadas riquezas
com vistas ao mercado europeu) evidentemente que preferiam as áreas menos
quentes não porque isso seja uma característica inata ou “natural” do ser humano
e sim porque eram europeus e tinham um modo de vida (e uma tecnologia) mais
apropriado para as áreas com estações do ano definidas e com invernos mais
frios. Quanto à influência do maior grau de urbanização para o crescimento
econômico, o livro num certo sentido coloca o carro na frente dos bois, ou
seja, toma como causa algo que é consequência, pois todo mundo sabe, após
inúmeras pesquisas que remontam ao século XIX, que é o desenvolvimento da
economia, notadamente a industrialização, que ocasiona a urbanização e não o
inverso.
O seguinte trecho do livro ilustra bem a sua
essência:
“Fatores geográficos explicam grande porção da
diferença de crescimento entre a América Latina e os países industrializados, mas
não entre a América Latina e o Leste da Ásia. Os países industrializados contam
com fatores geográficos físicos e humanos mais favoráveis, e cada um dos quais
explica cerca de um terço da diferença de crescimento. As principais vantagens
dos países industrializados derivam do fato de eles estarem localizados em
zonas temperadas e terem índices mais elevados de urbanização. A América Latina
e o Leste da Ásia têm características geográficas semelhantes, e apenas uma
pequena fração da diferença de crescimento entre as duas regiões
pode ser atribuída à geografia. (...) Esse ponto é crucial porque ele
reforça o argumento de que geografia não é destino e que políticas e
instituições adequadas conseguem compensar seus efeitos adversos.” (pg. 79)
Acredito que aí está todo o espírito do trabalho,
pois resume a sua ideia central. Qual seria ela? A de que as chamadas
“condições geográficas” exercem uma influência, às vezes maior (como na América
Latina) e por vezes menor (como no Leste da Ásia, isto é, países tropicais ou
equatoriais como Cingapura que se tornaram desenvolvidos), mas que em última
instância “geografia não é destino”. Sem dúvida que não! Essa afirmativa é
corretíssima. Por sinal, nada é destino: nem a história, nem a economia, nem a
cultura e tampouco a biologia. Se a história fosse inexorável,
inescapável, Cingapura não seria hoje um país desenvolvido, pois afinal também
foi uma colônia de exploração e até os anos 1960 era tido como um dos países
com maior grau de corrupção do mundo, além da pobreza de grande parte da
população. E se a economia fosse destino, a outrora paupérrima China não
estaria caminhando para ser a maior economia mundial; e por outro lado, países
vistos como ricos e poderosos no passado, como Portugal e Espanha, tornaram-se
praticamente subdesenvolvidos, só conseguindo se reerguer devido à unificação
europeia – ou seja, em função, principalmente (mas não apenas), de sua
localização relativa. Sequer a cultura é destino: países católicos se
desenvolveram (França, Itália) enquanto que inúmeros protestantes ficaram para
trás (Ruanda, Botswana, Nigéria, Suriname, Guiana, São Cristóvão e Nevis e
inúmeros outros); e a propalada melhor adaptação da cultura confucionista para
o desenvolvimento capitalista (tese em moda nos anos 1970 devido ao enorme
“arranque” da economia japonesa no período) também é algo duvidoso, pois além
da atual (desde os anos 1990) e grave crise do Japão, praticamente uma
estagnação econômica que perdura por duas décadas, a China só conseguiu de fato
decolar quando deixou de lado suas tradições e passou a imitar o exemplo – e a
tecnologia – dos Estados Unidos e dos países europeus. Quanto à biologia, é
desnecessário dar algum exemplo de que não é destino, ou seja, não determina o
desenvolvimento de uma sociedade: há tempos que o racismo deixou de ser levado
a sério nos meios científicos.
Seria este livro determinista? Um colega professor
universitário de geografia humana fez essa afirmação peremptória (a de que o
livro contém um determinismo rasteiro), mas não vou mencionar o nome porque foi
apenas uma afirmação verbal num bate papo informal e não uma análise mais
aprofundada em algum texto. Em todo o caso, acredito que não, isto é, que não é
uma obra determinista, embora contenha inúmeras ideias banais e até simplistas.
Mas para explicar isso é necessário definir precisamente o que estamos
entendendo por determinismo, ou melhor, determinismo geográfico.
Cabe distinguir determinismo científico ou
epistemológico dos demais determinismos: o econômico, o geográfico, o histórico,
o cultural, o sexual, o biológico, etc. Determinismo científico, ou o
princípio do determinismo tal como preferem inúmeros autores [dentre os
quais Einstein, Popper e Hawking], é algo irreprochável e fundamental para a
ciência moderna. É a tese segundo a qual tudo pode ser explicado objetiva e racionalmente
em termos de causas e consequências. Não de forma simplista e sim complexa. Por
exemplo: as causas podem ser (e geralmente são) múltiplas e até
probabilísticas, e nunca uma só como imagina pensamento unilateral que, levado
aos extremos, gera os determinismos particulares. E as consequências ou efeitos
podem virar causas e vice-versa (3).
Mas existem causas e efeitos ou, em outras palavras, encadeamento de fatores ou
de processos que interagem. Esse é o princípio do determinismo, aceito pelos
físicos, químicos, biólogos, teóricos da epistemologia, etc., que fundamenta a
ciência moderna desde pelo menos Galileu Galilei no século XVII. Apesar do nome
em comum, ele não deve ser identificado com os determinismos particulares.
Estes são condenáveis, são interpretações equivocadas, no fundo exageros ou
visões unilaterais que só veem uma causa unívoca como determinante de um
fenômeno, por via de regra o caráter ou as características de uma sociedade. É
o caso, por exemplo, de encarar as chamadas “condições geográficas”,
especialmente o clima, como definidor do tipo de sociedade e da sua dinâmica.
Este é o determinismo geográfico, tão em voga até pelo menos o século XVIII e
que não deve ser confundido, como boa parte dos geógrafos ainda faz, com uma
pretensa “escola determinista” (que nunca existiu, convém realçar) capitaneada
por Ratzel (4).
Podemos ainda falar num determinismo histórico, muito comum entre certos
marxistas, que consiste em enxergar a história como algo inapelável e
determinante, que explica e decide o futuro de tudo. Assim como também existe o
determinismo sexual (a sexualidade seria o determinante de todo o comportamento
humano, algo comum em certa simplificação da psicanálise), ou o econômico
(atitude que vê a economia como uma panaceia que determina tudo numa sociedade:
a cultura, os mitos, a tecnologia, as relações com a natureza, as relações
sociais, a sexualidade e por aí afora) e inúmeros outros, sendo que o mais
recente deles é o genético.
Este livro não é determinista no sentido estreito do
termo, ou seja, não professa um determinismo geográfico na medida em que os
autores não endossam a tese que geografia é destino, que as condições
geográficas explicam todas ou quase todas as diferenças internacionais e
inter-regionais de desenvolvimento. Eles apenas afirmam que “a geografia
importa”, isto é, que ela tem o seu peso, embora maior em certas regiões (sem
nunca ser algo inexorável ou inescapável) e menor em outras nas quais as
instituições políticas e sociais (incluindo-se aqui, evidentemente, a
tecnologia) mais eficientes conseguem vencer as “limitações impostas
pelo meio ambiente”. Isso não é determinismo geográfico, é apenas o estudo
– embora meio capenga ou limitado – de uma das variáveis que influem nessas
desigualdades, ou melhor, de algumas variáveis tais como o clima, a altitude, a
disponibilidade de recursos naturais, a urbanização e a maior ou menor
incidência de certas doenças ligadas ao meio ambiente. É bom deixar claro que
os autores não afirmam que só a geografia importa, ou que ela importa antes de
tudo. E não se pode esquecer que este trabalho foi encomendado para – e,
portanto, teve como objetivo – verificar o peso das condições geográficas, nessas
desigualdades de desenvolvimento, e não a influência da cultura, das
instituições, da educação ou de algum outro fator.
Acontece que alguns geógrafos, seguidores talvez sem
o perceber da tradição geográfica francesa com a sua crítica apressada e mal
feita ao “determinismo geográfico” [uma crítica, ou melhor, um xingamento que
não conseguiu discernir o princípio do determinismo deste determinismo
particular, que não conseguiu enfim entender a diferença entre um estudo que investiga
até que ponto as condições geográficas influenciam as características ou o
desenvolvimento de uma comunidade ou de uma sociedade, algo perfeitamente
aceitável do ponto de vista científico, de um apriorismo que vê a natureza como
condicionante deste mesmo desenvolvimento] têm uma espécie de paranoia, uma
recusa por princípio em sequer ouvir falar numa possível influência do clima ou
da localização ou da carência de recursos naturais no atraso de algum país ou
região. Como assinalou um geógrafo britânico (5), isso foi uma espécie de autocensura que muito atravancou
as pesquisas geográficas e que, na história da geografia no século XX,
contribuiu para manter certo atraso na geografia humana e em especial na
econômica.
(São Paulo,
outubro de 2006)
NOTAS:
(*) Professor Livre
Docente do Depto. de
Geografia da FFLCH da Universidade de São Paulo.
(1) Ver a
esse respeito as obras de KRUGMAN, P. Development,
Geography, and Economic Theory. Massachussets, MIT Press, 1997; KRUGMAN, P. Geography
and Trade. Massachussets, MIT Press, 1993; KRUGMAN, P. “Increasing returns and economic
geography”, in Journal of Political
Economy. Agosto
de 1991, n.99, pp.
483–99; KRUGMAN, P., FUJITA M. e VENABLES, A. Economia espacial. São Paulo, Futura, 2002; SACHS, J. O fim da pobreza.
São Paulo, Cia. das Letras, 2006; e SACHS, J.
“Notes on a new sociology of economic development”, in HUNTINGTON, S. (Org.). Culture matters. Nova York, Basic Books, 2000.
(2) LANDES, David
S. Riqueza e a pobreza das Nações. Rio
de Janeiro, Campus, 1998.
(3) Sobre este
item, cf. as análises percucientes de MORIN, Edgar. Introduction à La pensée
complexe. Paris, Seuil, 2005.
(4) Esse mito na
verdade foi construído por franceses (La Blache,
Durkheim e principalmente Lucien Fèbre)
no início do século passado e teve motivações corporativistas (sociólogos e
historiadores, num viés positivista, acusavam Ratzel,
especialmente na sua geografia política, de estar “invadindo o seu objeto de
estudos”) e também patrióticas (havia na época um intenso clima de rivalidade
entre a Alemanha e a França, em especial um rancor dos franceses pelas derrotas
que sofreram nas guerras napoleônicas e na guerra franco-prussiana de 1870-71).
Mas sem dúvida que existiram pensadores adeptos de um determinismo geográfico,
mesmo sem usar essa identificação, pelo menos até meados do século XIX. [Depois
isso foi declinando em função dos avanços tecnológicos com a Revolução
Industrial e o crescente poderio das sociedades modernas sobre o seu meio
ambiente. Por sinal, as condições naturais têm sim um peso significativo nas
sociedades tradicionais, embora evidentemente não seja o fator determinante
(que em geral não existe, pelo menos não no social-histórico, no qual uma dada
realidade sempre é complexa e resultado de inúmeros fatores interligados, às
vezes até num número indeterminado); por esse motivo é absurda a acusação de
determinista que alguns geógrafos fazem a Jared
Diamond]. Mas não foi o caso de Ratzel, que no fundo buscou
perscrutar e sistematizar a dimensão espacial ou geográfica da sociedade
humana, em especial da política (estudando territórios, fronteiras, ordem
mundial, as relações do Estado com o seu território, etc.), mas nunca afirmou
explicitamente que essa dimensão determinaria de forma unívoca a sociedade ou a
atividade política. A respeito da construção desse mito da “escola
determinista” na geografia germânica, veja-se nosso artigo in http://confins.revues.org/index1162.html.
(5) UNWIN, Tim. The place of Geography. London, Longman Group, 1992, p.262.